sexta-feira, 10 de setembro de 2010

"Se ganhar a jogar mal, não durmo bem"

Por não dar entrevistas individuais - um hábito que mantém desde a Académica -, nos últimos dez minutos da conferência de Imprensa Villas-Boas respondeu, em inglês, às perguntas de um jornalista japonês, a preparar um trabalho de quatro páginas sobre o técnico a publicar brevemente na revista "The Hochi Shimbun". "O facto de estar aqui um jornalista do Japão demonstra que provoco uma certa curiosidade. Se estou a ter sucesso, devo-o também a um grupo de jogadores e a uma estrutura", começou por dizer Villas-Boas.
Sem medo de assumir o objectivo de "vencer tudo", o treinador descreveu a maneira como se vive o futebol em Portugal. "As pessoas prezam-te quando vences, mas quando perdes não toleram as falhas. Quando falhas, que pode ser por causa da natureza do jogo, afectam o teu moral." Com seis vitórias em seis jogos, Villas-Boas também disse estar preparado para momentos menos bons. "Mais cedo ou mais tarde haverá falhas", reconheceu.
A maneira como chegou ao futebol, pela mão de Bobby Robson, também fez parte do questionário da revista nipónica, tal como a colaboração com José Mourinho. "Todos os treinadores me deram experiência e conhecimento. Estou grato aos dois e não esqueço o que me ajudaram, mas também demonstrei o meu profissionalismo." Logo depois veio a comparação. "As ideologias dos meus pais, entre aspas, são diferentes. O Robson tinha uma maneira de pensar o futebol, enquanto o Mourinho adopta maneiras diferentes de jogar dependendo das equipas que orienta", recordou.
Assumindo-se como um "romântico do futebol", que gosta de trabalhar aspectos como a "posse e a velocidade de circulação da bola", o treinador portista valoriza um jogo com "muitas oportunidades de golo, sucesso e futebol de ataque". No entanto, vencer não é tudo. "Os adeptos merecem bom futebol. Nem sempre se recordam apenas as equipas que ganham, mas também as que jogam bem. Como a Holanda de Rinus Michels, o Brasil de 1982, o Bari de Giampero Ventura [futebol italiano, época passada] ou ainda equipas como a Argentina de Marcelo Bielsa. No álbum do futebol, recordam-se os vencedores e os que jogam bem. Se ganhar a jogar mal, não durmo bem", explicou.
Dizendo que não chegou ao FC Porto sem provas dadas - "Não é fácil convencer o presidente do FC Porto" -, Villas-Boas revelou alguns "sonhos estranhos" para a sua carreira. "Gostava de treinar na Argentina, no Chile e no Japão, porque gosto de Tóquio. Mas tenho um trabalho de sonho no FC Porto e quero ficar cá muitos anos. O normal é um treinador não ficar mais de dois anos neste clube, mas tenho de convencer o presidente para ficar dez anos. Adoro o clube, o ambiente e sinto-me envolvido com tudo. Adoro a cidade e as pessoas do Norte, que representam uma certa maneira de ser e com as quais me identifico. Não se encontram estes valores em todo o lado", afirmou André Villas-Boas.

O Jogo